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16/12/2008
Por Nailor Marques Jr
Dicionário para a educação do século XXI (parte IV)
 

Dicionário para a educação do século XXI (parte IV)

 

Esta matéria é apenas uma continuação das três anteriores, que, talvez, mereçam ser relidas para formar um todo orgânico.

Leitura: não quer dizer apenas decodificação de letras em texto escrito. Ler é muito mais que isso, é compreender, apanhar e entender informações, relacionar o que se vê com a bagagem que se tem. O mundo é um grande texto e as pessoas precisam ser ensinadas disso, precisam ir à escola para entender que a leitura é a grande possibilidade de expansão dos horizontes que trazemos de casa. Para tanto, quanto maior for o nosso contato direto com as mais variadas formas de leitura, mais teremos chance de estabelecer posições seguras diante da vida que nos cerca e em direção à que desejamos para nós. É preciso mergulhar no mundo da leitura para que ele nos leve à leitura do mundo. É preciso que aprendamos dar aos textos não-verbais tanta importância quanto damos aos verbais, que seja tão importante ler códigos escritos quanto pinturas, cartazes, propagandas, filmes, quadros, pessoas, gestos, cores etc.

Imaginação: é deixar que cada um rode em sua cabeça seu próprio filme, é não tirar o direito dos alunos de serem diretores de seus próprios roteiros. É sabido por todos que ler um livro é sempre mais instigante do que ver um filme. Quando lemos, criamos nós mesmos pessoas e lugares e quando vemos, somos obrigados a viajar na imaginação dos outros. A escola perdeu um pouco dessa magia, desse poder imagético de deixar cada pessoa construir o conhecimento a partir de um mundo próprio, seguindo é claro orientações prévias teóricas fundamentadas. Nas ciências humanas os alunos são levados, na maior parte dos casos, a viagens históricas, eles conseguem, com professores habilidosos, mergulhar um pouco nas guerras, nos romances, nos cenários geográficos. Talvez por isso as ciências humanas sejam pensadas naturalmente de forma mais interdisciplinar. É preciso, no entanto, que essa exploração do poder imaginativo dos alunos seja explorado também nas exatas e nas biológicas e isso não é tão difícil quanto se pensa, basta que os professores não transmitam apenas as fórmulas, mas mergulhem seus alunos na vida e no pensamento dos criadores das mesma fórmulas, das mesmas descobertas científicas. Sabendo como as teorias foram pensadas, talvez os alunos consigam dar mais valor ao aprendizado. Parece-me muito gratificante pensar que Thomas Edson tentou e fracassou duas mil vezes antes de conseguir inventar a lâmpada elétrica ou que Alfred Nobel matou muita gente antes de solidificar a nitroglicerina em bananas de dinamite, ou ainda, que Einstein dedicou mais de quinze anos de sua vida trancado em laboratórios para expor as primeiras idéias sobre a relatividade.

Conflito: os confrontos dentro da escola acontecem, tenho a impressão, na maior parte dos casos, porque tanto professores quanto alunos não sabem direito quais os seus papéis dentro do ambiente escolar. Alunos querem as regras das ruas, dos seus grupos sociais, na maior parte formados por condutas adolescentes e alguns professores querem regras militarizadas para não dizer regras imutáveis do mundo samurai. O choque de pontos de vista tão divergentes deve, é claro, propiciar o surgimento de inúmeros conflitos. Primeiro, é preciso levar em conta que os valores mudam de geração para geração e que dificilmente nós conseguiremos que alunos do início do século XXI tenham o mesmo comportamento que os do início do século XX, são outros tempos e outros valores. É preciso também que os alunos entendam que a escola não é a rua, muito menos a casa deles (muitos dizem que é uma segunda casa, quando na verdade é um lugar de trabalho como outro qualquer e que, como tal, precisa ser visto e tratado). O que é preciso é que as cartas sejam colocadas sobre a mesa e que cada uma das partes compreenda qual é seu papel e sua função dentro da formação da ambiência escolar. Regras são necessárias, isto precisa ser dito claramente e o não respeito a elas deve ser punido, posto que fora da escola é assim que o mundo se estrutura. Mas é preciso também que saibamos construir as tais regras e que todos participem e entendam porque e para quem elas existem. Quando todos compreendem é  mais fácil que todos aceitem. Nas escolas o que se vê, no entanto, é um grupo de professores tentando moralizar os alunos, quando eles próprios não respeitam as regras que lhes cabem. Quem não faz, não tem moral para exigir que os outros façam.

Escolaridade: há no Brasil uma confusão clássica entre conhecimento e escolaridade. É verdade que, teoricamente, uma coisa está enfronhada na outra, mas na prática sabemos que nem sempre isto se dá. O Governo vem trabalhando para que cada vez mais pessoas tenham maior grau de escolaridade, mas já se sabe que apenas sentar num banco de escola não agrega conhecimento para ninguém. São inúmeras as estratégias de se empurrar cada vez mais alunos para ciclos mais altos na escada da escolaridade, porém o que vemos ao cabo dessas manobras são pessoas tituladas, mas semi-analfabetas ou alfabetizadas apenas no papel. Professores precisam se assumir professores, seres que estão num processo dispostos a realmente passar o que sabem. É certo que nem sempre as condições são as mais propícias, mas também é verdadeiro que, independente das condições, há pessoas fazendo trabalhos excepcionais. O que é preciso deixar claro é que as escolas não podem estar restritas a ensinar técnicas de colocar pessoas num mercado imediato de trabalho, porque se a elas só servissem para isso (e não para ensinar a tradição, a história da humanidade e da formação de seu pensamento), deveriam ser fechadas todas as organizações educacionais tradicionais e só serem criadas SENACs, SESIs et congeneris. A escola deve ensinar o ontem como elemento para a construção pessoal do amanhã.

Fracasso: é você levantar pela manhã e ir dormir à noite com a certeza de que não fez nada significativo durante o dia. É passar a vida como as nuvens brancas, como diria o poeta, em brancas nuvens. É passar oito anos ou mais para concluir a escolaridade básica obrigatória e, ao final dela, saber pouco mais do que ler placas de rua, assinar o nome e fazer as quatro operações, desde que as divisões não tenham mais de uma casa e as somas ou multiplicações não venham em forma de problemas elaborados.

Família: é um parceiro importante para o sucesso da e na escola, dos professores e dos alunos, desde que essa estrutura entenda qual é o seu papel na construção de pessoas por meio da educação formal. Os pais, se quiserem, podem ser os principais amigos da escola. A missão deles é fortalecer a escola enquanto instituição social, formadora necessária e indispensável do sucesso de seus filhos, portanto devem defendê-la a todo custo, porque escola fraca quer dizer alunos fracos e alunos fracos constroem uma sociedade fraca. A família deve fazer seu papel em casa e deve deixar que a escola faça o dela no seu próprio ambiente. Não é certo que pais se intrometam nas organizações pedagógicas como se elas fossem a casa da mãe Joana. Não dizemos ao dentista como ele tratará nossos dentes, nem ao médico que remédio deveremos tomar ou ao advogado qual a melhor medida judicial para o problema que apresentamos. Se não é assim com eles, por que deveria ser com professores, pedagogos, diretores e orientadores. Cada macaco no seu galho e todos a favor da solidez da árvore.

 

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